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segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Kika nos deixou. Estamos ficando sós. ​ de ​Paulo Konder Bornhausen.



 O Kika nos deixou. Estamos ficando sós.



​Paulo Konder Bornhausen.



​É a vida. Nascemos sabendo desde cedo que ela é uma viagem, mais curta ou mais longa, de acordo com os desígnios de Deus. Para mim, católico, crente no Senhor, acredito que a nossa alma é eterna e terá um novo destino após a morte. Este é um dos grandes mistérios de Cristo.

Como ser humano, não importa a idade, a morte é sempre sentida, amarga, chorada, uma apunhalada em nossos corações, por mais que sejam as palavras de consolo, solidariedade e ainda que a nossa fé nos faça convencer que ela é a apenas o início da vida eterna que Deus nos reservou.

Hoje é um dia doloroso, muito triste para mim. Desta feita, foi o Kika, o nosso Marcos Francisco Heusi que nos deixou, um dos poucos amigos de infância que a benesse Divina concedeu, como para mim, a longevidade, o que me faz sentir que estamos cada dia ficando mais sós.

Filho exemplar, como puderam testemunhar seus pais Zilda e Nelson. Irmão que tinha grande afeto pelas irmãs Ticinha e Lourdes e que guardava igual afeto pelos filhos que seu pai teve no segundo casamento, depois do falecimento da Zilda. O que falar do esposo apaixonado pela sua Ione até o fim da vida, como se enamorados ainda o fossem? Ione, bonita, doce, com alegria permanente, foi uma felizarda em tê-lo ao seu lado por mais de sessenta anos e ele um privilegiado de escolher uma esposa, mãe, avó extraordinária. Quero crer que para Ione foi o seu primeiro e único amor, pois quanto ao Kika antes desta sua irresistível paixão andou arrastando suas “asinhas” para cima da Alaíde Melrro e para uma morena de olhos verdes, muito bonita que passou um verão em Cabeçudas e era de Curitiba, a Maria Alice Biscaía, de quem nunca mais se ouviu falar.

Nos últimos anos de vida, era lindo ver a felicidade transbordando no casal, depois que se fixaram em Camboriú rodeado dos filhos, parentes e amigos.

Kika era um homem sério, disciplinado, todo certinho, embora muitas vezes arredio e fechado.

Fora o tênis, nenhum outro esporte lhe seduzia. Além do trabalho, de diversão restava a TV, o contato familiar, o “papo” com os amigos, um joguinho de biriba ou canastra.

Pelo seu temperamento, sua excessiva boa fé, sempre foi alvo de brincadeiras por parte dos amigos.

Fez parte da famosa “Turma de Cabeçudas”, ainda que muitos dos seus integrantes lá não residissem. Formada por mim (PKB), por ele (Kika), pelos meus irmãos Roberto (Beto) e Jorge (Joreca), pelos irmãos Francisco (Chico) e Eduardo Santos Lins (Pimpa), Laércio Gomes da Silva (Lalá), Luiz Razzini (Luca), Julio César, Furza Lima e Rudi Bauer aos quais se agregavam nos verões, o Eddy Grossembacker, o Flavio Coelho, o João Bauer (João Pomba) para citar os mais íntimos.

Tanto o Kika, como o Robeto não eram o que poderíamos chamar de boêmios natos, dados a orgia e homéricas bebedeiras. Ele acompanhava os “movimentos” da turma, mais pela amizade que nos unia.

Era “empurrado” principalmente pelo vizinho e primo Helio Guerreiro (Tio Helinho) que costumava dizer que mesmo depois de ter idade madura o Kika acreditava ainda em Papai Noel.

Casados, nos reuníamos todo fim de semana ou mais, para jantar na casa de um de nós, dançar, cantar e tomar uns “tragos” indispensáveis. Não poucas vezes saímos das nossas reuniões, andando pelas ruas da pacata Cabeçudas para fazer barulhentas serenatas. Ione, que tem uma excelente voz era sempre convidada para cantar o que deixava o Kika contrariado, emburrado e cheio de ciúmes.

Todos os carnavais a turma inventava uma fantasia criativa para irmos às segundas-feiras no Guarany. Em um desses bailes, acabamos com o carnaval, com uma verdadeira batalha campal, que virou pancadaria geral, parando a orquestra, o que nos custou uma punição com repreensão do então Presidente da Sociedade do Guarany, o Abdon Fóes, um getulista fanático que se não me engano, na época já tinha sido Prefeito da cidade.

Mas a grande verdade é que o Marcos teve uma vida dura. Frustrado na tentativa de doutorado em Engenharia Elétrica, em Itajubá, Minas Gerais, foi trabalhar com o pai na antiga Bornhausen & Cia, firma de despachos aduaneiros. Foi um longo período de “vacas magras”, afinal, além da sua amada Ione, tinha que sustentar e educar uma prole de quatro filhos.

Tentou comigo enveredar no comércio varejista e com os sócios Luiz Razzini e o Pimpa, fundamos a primeira grande loja de aparelhos de  eletrodomésticos em Itajaí, a Pimpa Representações Ltda.

O sonho durou pouco tempo, pois não tínhamos estrutura (rede de lojas) que comportassem os investimentos necessários e nos vimos na condição de vendê-la para Hermes Macedo, já consagrada no Paraná e em algumas cidades catarinenses.

Marcos não desistiu. Continuou trabalhando com o pai, apegou-se a uma causa que os Despachantes aduaneiros demandavam, se não me falha a memória, contra a União, em busca de uma indenização que tinham direito.

Foram, penosos e longos anos de luta diária, a qual se dedicou de corpo e alma. Apelou para o espiritismo, religião da família de Ione e passou a ouvir diariamente sua Água Branca, chamada Inezinha, alvo de constantes pilhérias dos seus amigos íntimos aos quais repudiava com veemência. Não admitia brincadeiras deste porte. A verdade é que passados os longos anos, se viu parcialmente vitorioso.

Nunca militou na Política, como o fez seu pai, líder e udenista fanático. Porém nunca nos deixou de acompanhar. Na minha campanha para Deputado Estadual em 1954 foi presente em Itajaí, Penha, Guaramirim e em São Francisco do Sul, com assiduidade. Quando Jânio Quadros me nomeou Presidente do Instituto Nacional do Pinho fez questão de ir com o Luiz Razzini e o Helio Guerreiro a minha posse na sede de INP na rua México no Rio de Janeiro.

Em 1982 fazia parte da equipe que formava em um ônibus, para irem aos comícios da candidatura do Jorge ao Senado, ônibus misto, barulhento e contava com a presença de uma banda integrada por funcionários da Bescredi, da qual Tio Helinho era Presidente.

Quando Antonio Carlos levou-o para fazer parte do seu Governo em Florianópolis, como Diretor Administrativo da recém inaugurada Cocar Cia de Abastecimento de Santa Catarina, conservado no Governo do Jorge, proporcionou-lhe uma das maiores alegrias da vida. Marcos, o nosso Kika, era discreto, pode-se dizer tímido, um homem de família, com valores e princípios, amigo leal aos seus amigos, generoso, emotivo e bom caráter.

Lembro-me bem, que foi às lágrimas, quando nomeei seu filho mais velho, Nelson, para a COBEC, Cia Brasileira de Entrepostos e Comércio no Rio de Janeiro, dando inicio a uma próspera carreira empresarial.

Rotariano, sério e compenetrado, por amizade também fazia parte de um Clube de Fanfarras, o Rattosclan que se reunia semanalmente no Hotel Lipmann para jogar “conversa fora” e “tomar umas e outras”. Deste também participavam o Paulinho Collares (Tatú) e o Plínio Bueno.

Falar do Kika, da nossa amizade, das alegrias, decepções e aventuras que vivemos juntos, teria que escrever um livro, por isso fico nesta resumida homenagem, mas não consigo deixar de relatar alguns episódios hilários de que foi partícipe, até para amenizar a dor da saudade que dele sempre teremos.

De uma feita, descobrimos que ele, o Luiz Razzini e o cunhado Luis Nastari, caíram no “conto do vigário” de um anúncio e compraram uma máquina capaz de localizar jazidas de ouro. Na surdina, de máquina em punho, foram várias madrugadas “garimpar” o ouro que o povo dizia ser farto no território do Município de Gaspar. Frustrados às tentativas trataram de dar sumiço na “máquina milagrosa”, mas foram descobertos do segredo que esperavam não ser desvendado. A gozação foi tanta que logo espalhou-se por toda a cidade.

Numa outra oportunidade resolvemos ir ao Dancing, no Rio, na Avenida Rio Branco. Na entrada os freqüentadores recebiam um cartão que seria picotado pelas “meninas” a cada dança que fizessem, para pagamento na saída. Já de entrada, Marcos pegou o cartão sem entender nada. De um lado do salão ficavam sentadas as “meninas” e do outro lado os freqüentadores. Quando a orquestra começava a tocar os homens iam convidar as “meninas” para dançar, e ao cabo de cada música picotavam o cartão. O Kika ficou sentado, apreciando, meio aturdido, quando o Julio César lhe sussurrou – Marcos vá dançar, a consumação mínima é de dez músicas. Ele de terno branco, não sei se de linho ou panamá meio tremulo, nervoso, pegou uma “menina” e tratou de dançar as dez músicas da consumação e depois suplicou para ir embora. As nossas gargalhadas só foram acabar quando o deixamos no apartamento, do Genésio Lins, onde estava hospedado com o Pimpa e a vó Julieta.

Finalmente a caçada em Palmas na fazenda do Gerente do Inco sr. Vasconcellos. Éramos seis caçadores e meu cunhado levou os cachorros num avião monomotor do meu sogro.

No acampamento ficou decidido que quatro iriam cedo atrás das perdizes e eu e o Kika iríamos mais tarde, depois preparar a “bóia”. Como sabia que ele tinha horror a cebola, fui logo dando dez para descascá-las e cortá-las em fatias. Nunca mais me perdoou por esta maldade. Terminando o almoço, treinamos a pontaria matando umas pobres galinhas do Vasconcellos e resolvemos ir passear na cidade de Palmas, sudoeste do Paraná, onde se localizava a fazenda. No meio do caminho encontramos um caçador com uma “penca” de umas vinte codornas. Depois de uma irrecusável oferta, pegamos as codornas e fomos para o acampamento. Vestimos as roupas e as botas de caça, empunhamos as espingardas e uma “penca” de codornas, resultado da nossa “grande caçada”, ficamos a espera dos eméritos caçadores, que chegaram de mãos limpas e ficaram estarrecidos com a “nossa caçada”. Impusemos vitoriosos, um castigo, nenhum deles teria direito a comer mais do que uma codorna.

Histórias ou estórias a parte, as minhas ultimas lembranças do Marcos, meu querido amigo, que me vem a mente, primeiro foi o meu aniversário de oitenta anos, quando convidei 13 amigos, quase todos octogenários, para um almoço no restaurante “Spettus” no Floripa Shopping. Foi um reencontro emocionante. Ele estava bem disposto, radiante e feliz, transbordando de alegria de rever seus velhos amigos.

Finalmente, dias atrás, já hospitalizado em São Paulo liguei no seu celular;

-​Marcos é o Paulo, o PKB.

-​Que bom te ouvir “PKB ao Catete”. Saudação que fazia em todos os nossos encontros.

-​Como vais passando?

-​PKB, finalmente marcaram a cirurgia para próxima segunda-feira, vou ter que trocar a válvula que tenho no coração.

-​Vai dar tudo certo, Deus é grande! Retruquei.

-​Obrigada pelo teu interesse. Terminou.

Ontem estive no crematório de Camboriú, assisti toda a cerimônia, abracei a Ione, filhos, parentes e amigos e me dei o direito de não me despedir dele. Falei de longe, até logo querido Marcos, muito em breve estaremos juntos. Deus irá lhe acolher porque você fez por merecer.

Lá se foi o Marcos, o nosso Kika e nós, ficamos cada vez mais sós.



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